Contra o Brasil

Mangueira remoção

Ali onde o ‘Brasil’ foi brandido como sujeito coletivo, grassaram o massacre e a dominação.

Toda a controvérsia sobre a Copa do Mundo se sustenta sobre entendimentos radicalmente distintos sobre o Brasil. Enquanto os defensores do megaevento insistem na mistificação do Brasil como unidade, pretendendo pacificar as lutas através de discursos que operam na chave retórica do estado e da nação como entes unitários e tentando nos convencer de que ‘o Brasil crescerá’ ou que ‘a imagem do Brasil será manchada no exterior’, aqueles que se opõem aos descalabros gerados pelo mesmo evento – como as remoções que podem afetar até 250 mil pessoas nas 12 cidades-sede, o modelo de cidade neoliberal posto em marcha, a elitização do futebol, entre outros – abrem uma verdadeira fissura nessa unidade, demonstrando-a como a mistificação que ela é ao perguntar ‘Qual Brasil?’.

Ora, o Brasil não existe (e nunca existiu), senão enquanto representação que pretende(u) pacificar a manifestação da diferença diante da identidade, expressa pelas rebeldias. Foi assim na fundação do Império do Brasil, com o nosso pacificador-mor, o Duque de Caxias, tornado patrono do Exército pelo desempenho nos massacres em que se desfecharam diversas das revoltas do período. Foi assim também na repressão aos movimentos rebeldes que se seguiram à proclamação da República no final do século XIX e no início do século XX, questionadores da ordem republicana oligárquica. E se repetiu, ainda mais uma vez, durante a ditadura militar, quando ‘o Brasil’ se tornou o signo de uma unidade autoritária sustentada através da manipulação discursiva dessa unidade como comunidade na qual todos estaríamos inscritos. Ali onde ‘O Brasil’ foi brandido como sujeito coletivo, grassaram massacres, autoritarismos e dominações de variados tipos.

Que setores da velha esquerda – em parte aquela mesma que resistiu brava e heroicamente, nos anos 60 e 70, ao uso apologético e mistificador da nação, representado pela violência ditatorial dos generais – neste momento, se identifiquem pari passu ao Brasil enquanto estado e nação é apenas a coroação de um movimento que parece destinado a promover uma unidade dos contrários, numa dialética paranoica que mobiliza o pior de dois mundos. A proliferação de um debate político assentado sobre a apropriação de conceitos e esquemas da nossa tradição e história política, nesse sentido, são esclarecedores. Mobiliza-se, a todo momento, o imaginário do golpe militar e da nossa tradição golpista, não raro associando-se o atual governo a um trabalhismo de ranço varguista e, portanto, paternalista (que o neoudenismo da oposição seja sua maior arma não é, aliás, uma mera coincidência), ao mesmo tempo em que continuamos presos ao ideário nacional-desenvolvimentista aggiornado no neodesenvolvimentismo. O Brasil dos primeiros anos do século XXI parece viver enfrentando os fantasmas da sua própria modernização entre 1930 e 1985 (e se foi FHC, e toda sua megalomania, quem prometeu acabar com a era Vargas, fundando um novo Brasil, Lula e o PT parecem pretender renová-la). Em todos eles, porém, está lá o ‘Brasil’, a nação, enquanto arquitrave do progresso, não à toa mobilizado pela direita e pela esquerda..

Perguntar-se por ‘qual Brasil’ (o quê o Partido dos Trabalhadores durante duas décadas foi capaz de fazer) é, portanto, explodir o pilar simbólico que sustenta todo o edifício da ordem nacional, uma construção realizada sobre as ruínas de diversos outros Brasis possíveis, mas silenciados pela violência autoritária que atravessa toda a nossa formação. Declarar-se contra o Brasil, contra esse Brasil, contra essa unidade e na trincheira daqueles que lhe oferecem resistência é, hoje – e foi sempre -, uma questão política que determina e atravessa todo o campo político (totalmente reconfigurado após junho de 2013, um evento capaz de acelerar toda a política do país e iluminar os diversos falsos dilemas colocados até então) – pois mesmo o conflito faccional que se realiza entre a atual elite no poder e aquela que deseja retornar é um confronto cujo objetivo é saber quem melhor pode gerir a barbárie do Brasil como nação indivisa.

Fincar o pé no chão ante o rolo compressor do complexo estado-nação (que inclui governo e mídia enquanto porta-vozes do capital e a democracia representativa, dominada pelo dinheiro, enquanto plutocracia legitimada) que anuncia nas propagandas de TV que ‘somos um só’ não é dar azo ao ‘retorno da direita’. Ao contrário, é o movimento de xeque que deixa entrever (pelo movimento que se faz para escapar dele) não só que a direita jamais esteve fora do poder institucional, mas que os próprios critérios segundo os quais se definem os lados opostos em política foram modificados, não bastando definir-se ideologicamente de esquerda – colocando-se na dinâmica que relativiza cotidianamente tal definição pelas necessidades (que Nietzsche já classificou como um ‘nome mais bonito’ para a estupidez) do exercício do poder -, mas sendo preciso refundar-se essa pertença ao campo daqueles que desejam a constituição de uma comunidade política cada vez mais democrática a cada momento, no porvir, ou seja, ontologicamente.

Por esse critério, a reação da esquerda no poder ao movimento de xeque tornou todas as instituições progressistas completamente obsoletas, abrindo um tempo de criação e experimentação de novas instituições. Aos artífices destas cabe a inovação fundamental, que o grito de ‘não vai ter Copa’ – um grito contra o Brasil onde ‘somos um só’ – parece anunciar como possível: ser contra o Brasil, para ser a favor de todos os Brasis violentados, massacrados, dominados, em uma só palavra, mistificados.

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O labirinto do lulismo

Labirinto

O cientista político André Singer publicou hoje, na Folha de São Paulo, um artigo, intitulado Armadilha lulista, no qual, comentando a entrevista do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, também concedida à Folha, enuncia o problema central que se coloca, atualmente, para o governo e para o Partido dos Trabalhadores: o impasse diante de uma contradição insolúvel, uma situação na qual a urgência do aprofundamento dos avanços sociais da primeira década do PT na presidência colide com o poder do mercado financeiro, avesso a qualquer alteração do status quo que se desenhe por fora do lulismo, do pacto social de conciliação de classes que emergiu com a eleição em 2002 de Lula à presidência da república.

O diagnóstico, que também é o de outro dos mais acurados analistas de conjuntura contemporâneos – como o historiador Lincoln Secco -, é dos mais corretos, mas ao contrário de Secco, Singer parece vagar perdido dentro do labirinto do próprio conceito, o lulismo, sem ter olhos para ver que não há qualquer dialética capaz de solucionar tal contradição por dentro, capaz de conservar o lulismo e ao mesmo tempo ‘aprimorá-lo’.

Tal cegueira decorre das debilidades da própria análise que Singer produziu do lulismo e que estão colocadas no artigo de hoje ao final do texto. Singer cita a entrevista de Belluzzo para descrever as dificuldades pelas quais passa a presidenta, cujo eleitorado seria “o pessoal mais desinformado sobre as razões dos problemas, que foi submetido a um processo de obscurecimento durante séculos” e, portanto, seria incapaz de intervir em favor de uma agenda que permitisse a solução do impasse. Tal diagnóstico remete ao esforço mais geral de compreensão do lulismo feito por Singer, para quem a governança petista teria sido capaz de proletarizar o subproletariado, elevando seus níveis de renda e consumo, mas sem ‘politizá-lo’ de forma consequente e de modo a criar, para citar a formulação do artigo de hoje, “uma base social suficiente para sustentar a ruptura necessária.”

Trata-se de uma análise bastante problemática na medida em que insiste num procedimento materialista vulgar, que pretende ser possível dar vida à um corpo sem alma, ou, para falar a linguagem do velho marxismo ortodoxo, de produzir uma classe sem consciência. E não apenas por colocar o problema num enquadramento que não permite extrair dele todas as implicações – o quê talvez explique o seu segundo problema -, mas por ignorar essa classe sem nome já se colocou, de corpo e alma, no campo de batalha, protagonizando os levantes multitudinários de junho e os confrontos que se seguiram.

Assim, a procura de Singer, em pleno 2014, pela “energia capaz de quebrar as 11 varas da camisa que (…) paralisa a nação?” quando ela já explodiu em toda a sua potência em meados de 2013 é o sinal de que o lulismo enquanto horizonte é a sua própria armadilha enquanto prática. Pois aqueles que continuarem a pensar o cenário nos seus termos, após o dramático anúncio do seu esgotamento, serão devorado por essa esfinge cujo enigma já foi respondido material e historicamente. A ausência de qualquer menção aos eventos de junho, por fim, não é fruto de uma miopia temporária, mas resultado de uma cegueira estrutural, pois enxergar a multidão resolveria a armadilha do lulismo, impondo o fim do imobilismo e do compromisso histórico que o caracterizam, resultando na necessidade de abandonar o próprio lulismo não apenas enquanto instrumento conceitual, mas também como engenharia política.

Mas enquanto o analista tateia, às cegas, procurando o impulso capaz de livrar a ‘nação’ da ‘paralisia’, o governo prepara um exército de dez mil homens para combater a multidão. O governo e o capital financeiro, melhor do que Singer, parecem saber onde está a ‘energia’ suficientemente potente para alterar a correlação social de forças e radicalizar a democracia.

Tempo de amor

A multidão do 7 de outubro.

A multidão do 7 de outubro.

“Mas tem que sofrer
Mas tem que chorar
Mas tem que querer
Pra poder amar”

Baden Powell e Vinícius de Moraes, ‘Tempo de amor’ In: Os afro-sambas (1966)

Depois das jornadas de junho, as lutas de outubro. 2013 é um ano que jamais acabará. Continuará ecoando como momento de explosão, como momento em que as mil e uma lutas que lhe precederam engastaram-se num plano de consistência, de solidez, de dureza, e fizeram emergir não o futuro, mas uma temporalidade aberta, em disputa. Um tempo que rompe a eterna sucessão modorrenta do mesmo, que na e pela luta abre as possibilidades de, no instante que se abre na borda do ser, inovar o mundo, criar um mundo novo. Outubro não confirma junho, mas o afirma. As jornadas de inverno não foram raios num céu azul, mas o prelúdio da tempestade que chegou de vez em plena primavera.

As nuvens não começaram a se carregar agora. O acúmulo das lutas sociais no Brasil remonta e faz ressoar os últimos anos. Quem vê os Black Blocs postados no front, vê o exército dos moradores do Pinheirinho. Quem se indigna com a tragédia do(s) Amarildo(s) são os milhares de membros da família Guarani Kaiowá. O belo monstro que surge nas ruas arrombando a porta da festa da ordem e do progresso em pleno 7 de setembro é a energia social e política que não será gerada na Belo Monte que destrói o Xingu.

Todas essas lutas, e muitas outras, mobilizavam antes de junho. E se elas eram incapazes de fazer rachar o consenso conservador do desenvolvimentismo, produziam pequenas fagulhas. Até que em junho o fogo pegou e o barril de pólvora explodiu. Os vinte centavos — símbolo da precariedade do transporte urbano em todas as cidades brasileiras — abriram a porta e deixaram passar a revolta popular. Mas a personagem, o espectro que nos ronda, que está conosco desde então é o de Amarildo. Pois o que temos feito desde então senão amar Amarildo?

Nós o temos amado, cada dia mais intensamente, acompanhando-o, no seu drama — que é nosso — enquanto signo daquilo que continuam sofrendo os pretos e pobres do Brasil. Amarildo tem consubstanciado o amor que temos compartilhado entre nós mesmos quando fazemos multidão. Pois, por mais que imperem as metáforas belicosas e que as cenas produzidas tenham sido, verdadeiramente, dignas de campos de batalha, o fenômeno novo não é o da guerra travada. Essa foi tão descortinada enquanto tal, pois descortinou-se a política enquanto sua continuação por outros meios. O fenômeno novo é a abertura de um novo tempo plasmado no amor das lutas.

A multidão que ganhou corpo, que se fez consistente de junho a outubro não emergiu naquele mesmo tempo que viu os ecos das indignações das lutas dos últimos anos esbarrar na indiferença geral. Emergiu num tempo novo, filho do amor, essa potência ontológica de construção do ser. Um tempo de amor, sofrido, chorado, desejado enquanto possibilidade de amar. Não um estado de coisas em que é possível amar (impossível desde a percepção de que é o próprio amor que gera o ser), mas uma temporalidade aberta em que esse amor consegue dar sentido comum às indignações, aos anseios e às esperanças de todos que compartilham da luta.

As batalhas travadas contra os poderes constituídos apodrecidos são a própria expressão potente desse amor que atravessa a multidão. É ele que produz a mistura entre Black Blocs e professores: Black Profs. É ele que retira o verniz da “paz” à brasileira que se assenta nessa violência que tortura e mata, nessa violência que faz desaparecer. Violência física e discursiva que coage pelo medo e se camufla nos lugares comuns do pacifismo como característica da brasilidade. O brasileiro, sabemos, de certa forma graças à Amarildo, não é pacífico. É pacificado. E as UPPs são tão somente um novo dispositivo dessa pacificação que institui a paz do medo garantindo a modernização capitalista. O novo moedor de carne humana que assegura a super-exploração do trabalho vivo dos pobres.

O tempo de amor que junho instaurou é capaz de abalar esse consenso secular, não apenas como figura discursiva, mas como possibilidade de ação. A descida, em manifestação, dos moradores da Rocinha e do Vidigal, bem como o protesto dos moradores da Maré contra a chacina perpetrada naquele território, foi emblemática da potência do que vem acontecendo no Brasil e, mais especificamente, no Rio de Janeiro: os pobres, sempre incapacitados de organização autônoma, encarnações mistificadas do pacifismo, marcharam pelo Leblon, fecharam a Av. Brasil… fizeram a Rocinha devir Black Bloc!

Nesse tempo que vamos vivendo o amor se apresenta aos olhos nos encontros na multidão: no seu fluxo encontramos e fazemos amigos, compartilhando, por vezes, apenas a alegria de estar juntos manifestando essa potência do encontro que nos altera, que nos faz outros. Na resistência comum contra as repressões desencadeadas pelo poder institucional que quer fechar esse portal por onde passa o inesperado.

Mas o amor não está presente apenas como condição ou sentimento compartilhador. Ele qualifica, transformando a multidão ao atravessá-la e aquela configuração potente de junho se metamorfoseou num monstro ainda mais assustador para o poder. As capas dos jornais, as imagens nas TVs o ilustram à exaustão por aquilo que elas não dizem, por aquilo que elas não mostram. O horror do poder foi ter assistido, boquiaberto de espanto, a uma multidão que, após passar por meses de luta, qualificou suas pautas através de um aprendizado político, intensificando os desejos de mudança. Não havia mais os gritos genéricos anti-corrupção, os cantos anti-violência e anti-partido. Havia pautas de transformação: LGBTs, defesa das riquezas naturais comuns contra os leilões do petróleo, o desejo de uma nova ordem que não sustente na e pela violência, entre outras, além da pauta-chave: a valorização da luta dos trabalhadores da educação contra o consórcio estado-mercado, o entendimento da educação como atividade socializada: auto-formação. Havia o desejo de derrubar governos (e não aquele que agradaria a certos setores do condomínio do poder, por mais condescendente que este seja com eles) e de se manifestar como poder constituinte capaz de alterar os rumos ditados pelo poder constituído, fazendo-o explodir na sua indiferença.

A multidão que emergiu nas ruas do centro do Rio de Janeiro neste 7 de outubro deu provas de não ser mais a mesma de junho. Sua metamorfose assustou, pois aquela monstruosidade ambígua de junho se alterou, detonando um movimento anti-poder, que articula mesmo as lutas do velho sindicalismo (ressignificadas na sua imersão no movimento dos movimentos). Os alvos ficaram nítidos e as pautas se revelaram em toda a sua radicalidade. O porvir que se abre no nosso tempo de amor é possibilidade de constituição de um sentido comum às diversas lutas. Para que possamos continuar a amar.