‘Não tem arrego!’: a batalha da Cinelândia

Aula de resistência.

Nos últimos dois dias a greve dos trabalhadores da educação do município do Rio de Janeiro cruzou o limite entre a luta organizada da formação dos consensos e a luta da afirmação do dissenso. Após a remoção da ocupação dos grevistas, no sábado à noite, realizada sob o império do arbítrio e da força, através de uma violência desproporcional que humilhou e feriu dezenas de profissionais — cuja maioria se compunha de mulheres –, a luta desses trabalhadores deixou de ser apenas por uma outra educação. Passou a ser por uma outra cidade, por uma outra política, por uma outra vida. Por um outro modo de viver a (e na) cidade, na metrópole. Desde o sábado ocorreu uma transmutação do movimento: ele foi atravessado pelo desejo de resistir. Seu objetivo passou a ser a própria luta, tacitamente criminalizada pelo tratamento que lhe foi dispensado pelo estado.

A transição entre setembro e outubro ficou marcada pela batalha da Cinelândia. Desde o dia 30 cercado por um efetivo gigantesco de forças policiais (entre PMs normais e destacamentos do batalhão de Choque), o palácio Pedro Ernesto, e, mais especificamente, a praça da Cinelândia se transformaram em cenários de guerra. O objetivo era impedir o acesso dos grevistas ao prédio, realizando as sessões de votação do Plano de Cargos, Carreira e Remuneração sem o acesso do povo, num arroubo de autoritarismo que sequer foi visto nos tempos ditatoriais (a lembrança de que o corpo do estudante Edson Luís, morto pela repressão, foi velado no mesmo palácio revela a escalada da exceção no estado do Rio de Janeiro).

Chuva de bombas de gás lacrimogêneo e efeito moral, jorros de spray de pimenta, choques elétricos e cacetadas foram desferidos contra os trabalhadores, engrossados por vários apoiadores da causa, grupos de resistência popular e os praticantes da tática Black Bloc. Mas nos últimos dois dias os professores não foram mais pegos de surpresa. Estavam ali preparados para a guerra, na qual se desnudou a política. E se na segunda-feira ainda houve o receio do confronto, na terça o que se viu foi um mar indistinto de trabalhadores e black blocs, resistindo juntos, em ondas de recuo e avanço contra as forças policiais. Durante praticamente dez horas houve resistência em vários pontos no centro da cidade.

A resistência dos trabalhadores da educação talvez permita que os movimentos sociais organizados e mesmo os partidos de esquerda (que desde junho revelaram-se incapazes de compreender a nova configuração da luta social no país) entendam que só há esperança de sucesso no atravessamento horizontal e horizontalizante da multidão que se recusa a ser rebanho. O agenciamento desse movimento de greve com as lutas da multidão indicam que a luta pela educação pode se converter no móvel de uma nova dinâmica rebelde, como aquela que levou milhões de pessoas às ruas em junho (e cuja consistência no Rio de Janeiro fez com que atingíssemos quatro meses de protestos praticamente diários em vários pontos da metrópole). Em menos de 24 horas o chamado para um ato em defesa dos educadores, no dia 7 de outubro, contra as políticas de Eduardo Paes e Sérgio Cabral, já registra quase 40 mil confirmações de presença.

Depois das jornadas de junho, as lutas de outubro? Só a mobilização e a luta dirão. Mas o aprendizado da multidão avança, sua potência se revela irreprimível e seus movimentos se demonstram cada vez mais politicamente qualificados pela luta. O que vem se forjando no Brasil nos últimos quatro meses é uma nova força de democratização da sociedade brasileira que se afirma na recusa de uma ordem institucional que se revela incompatível com os desejos de mais democracia. Que um segundo ciclo de grandes mobilizações tenha, possivelmente, na educação o seu mote de partida parece não apenas uma coincidência, mas uma indicação: há uma paideia democrática em ato.

Os meninos e meninas que estão sendo criados, formados por e nesses acontecimentos parecem ter ganho companheiros para a luta. E ontem, durante a batalha que se travou na Cinelândia e seus arredores, enquanto resistiam lado a lado, estreitando laços de admiração e amizade, eles gritavam juntos aquilo que aprenderam nas ruas, nos enfrentamentos violentos com as forças da ordem: ‘Não tem arrego!’.

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