Os anéis, os dedos e a mão (invisível)

A educação parou... o trânsito da Presidente Vargas!

A educação parou… o trânsito da Presidente Vargas!

O brilho dos anéis não pode ofuscar o quê move os dedos e a mão.

A greve dos profissionais da educação municipal do Rio de Janeiro teve ontem mais um dia intenso de lutas. Concentrados desde as dez horas da manhã à frente da prefeitura, milhares deles protestaram e pressionaram por diversas pontos de reivindicação que podem ser resumidos como um grande libelo coletivo, em ato, contra a gestão educacional neoliberal praticada no município desde há duas décadas, mas que se intensificou nos anos recentes, impulsionada pelo devastador consenso que se forjou no arranjo da hegemonia pemedebista na cidade.

Após mais de quatro horas no sol aguardando a reunião entre representantes do sindicato e do poder executivo municipal (fato inédito nos cinco anos de gestão do PMDB à frente da prefeitura e que até um dia antes parecia descartado por Paes e pela SME), a assembleia instalada, sem o resultado definitivo da reunião, deliberou pela continuidade da greve e pela marcha até a Cinelândia, tomando metade da avenida Presidente Vargas e toda a avenida Rio Branco. O apoio dos passantes e das pessoas nos prédios era nítido: motoristas buzinavam e muitos acenavam desde os prédios, jogando também papel picado.

Essa nova demonstração de força parece ter minado a resistência do poder executivo. Na chegada da marcha pelo centro da cidade, na Cinelândia, às quatro horas da tarde (onde o encontro com o OcupaCâmara articulou a alegria indignada dos dois movimentos), o sindicato, desde o carro de som, já acenava com o recuo de Paes e sua burocracia. A chegada dos representantes do SEPE confirmou a expectativa: o recuo incluía o atendimento parcial a algumas reivindicações e a multidão irrompeu em merecida festa, após mais de seis horas de espera e alguns quilômetros de marcha pelo centro da cidade, num sol digno de dezembro.

O prefeito aceitou reduzir o prazo de elaboração do Plano Unificado de Cargos, Carreira e Remuneração (PUCCR) dos profissionais da educação municipal, que, a priori, seria de 90 para 30 dias; incluiu o sindicato no grupo de elaboração desse mesmo plano, estabelecendo assim um diálogo constante com as categorias; estabeleceu como premissa do mesmo plano o tempo de serviço e a formação dos profissionais, incrementando em 8% os rendimentos de todos os servidores municipais da educação (além dos já 6,75% já consignados a todos os servidores da prefeitura); além de ter agendando duas reuniões com a Secretaria Municipal de Educação (SME) para início da elaboração do PUCCR e debate sobre a orientação pedagógica da SME. Por fim, amarrou-se a execução de todos os pontos negociados ao encerramento na greve em assembléia extraordinária, concordando-se em abonar as faltas decorrentes do movimento grevista (a ser realizada na segunda-feira, 26 de agosto).

A alegria com a qual foram recebidos os diversos recuos da prefeitura é amplamente justificada: o consenso neoliberal da educação do Rio de Janeiro foi arranhado e, assustado com a força da mobilização, recuou. O que não se pode admitir é que sejam tomados como vitória definitiva. O atendimento a alguns dos pontos de reivindicação das categorias em greve é paradigmático: Paes e Costin cedem os anéis para não perderam os dedos — e a mão (invisível) com que conduzem a gestão da educação na cidade. Pior ainda, o núcleo duro da ideologia neoliberal que comanda a educação pública no município restou intocado, impedindo que se avance justamente na afirmação de outras pedagogias.

A redução da carga horária em sala de aula, aumentando-se o tempo disponível para estudo e planejamento das aulas para 1/3 do total (atualmente disponibiliza-se apenas 1/5), o quê encerraria ainda a atuação em menos escolas e turmas, aumentado o potencial de envolvimento afetivo entre professores, alunos e comunidades escolares. Da mesma forma, a política meritocrática, que, como afirmamos em texto anterior, colocam na ordem do dia as “questões de ordem estatístico-administrativa (as metas a bater e toda a tensão micropolítica que elas instauram no cotidiano escolar)”, impedindo, portanto, melhores condições psicológicas de trabalho aos profissionais da educação, ficou para ser debatida em reunião após o fim da greve, nada permitindo sequer suspeitar que haverá qualquer mudança. E, por fim, a tão desejada abertura das contas da educação, com o questionamento dos desvios de recursos do FUNDEB, por exemplo, parece já ter sumido do horizonte de reivindicações.

As concessões econômico-corporativas são apenas e tão somente o movimento de manutenção do consenso em seus fundamentos, o quê significa, simplesmente, o travamento de quaisquer tentativas de invenção de novas formas de produção do saber, a ruptura com a atual situação da educação, caso em que o Rio de Janeiro é apenas a modulação local de uma realidade global. A questão fundamental — o neoliberalismo encarnado nos seus agentes o sabe muito bem — não é tanto a repartição dos recursos na educação, mas a capacidade de conduzir esta última na conformação de corpos, mentes e corações a um conjunto mais amplo de relações sociais onde a produção comum continuará a ser espoliada em favor de uns poucos. A batalha decisiva por uma educação democrática que abale, de fato, as bases do consenso majoritário não se joga nas disputas pelo ‘investimentos na educação’ (como crê todo aquele que deposita na educação o papel salvador perante uma sociedade secularmente baseada numa brutal desigualdade sócio-racial e de gênero), mas nas garantias à possibilidade da educação como prática e aprendizado de liberdade, capaz, portanto, de inovar, abrindo brechas e forjando sujeitos coletivos capazes de construir caminhos para a resolução dos problemas sociais ali onde eles podem realmente ser enfrentados, no âmbito do comum.

O movimento grevista, que já demonstrou força de mobilização e grande resiliência, deve refletir nesses dois dias se vale a pena aceitar os anéis, ou se, ao contrário, se deve avançar sobre os dedos, tornando visível a mão que avança sobre a educação e cuja cabeça visa todo o corpo da sociedade.

Anúncios

3 opiniões sobre “Os anéis, os dedos e a mão (invisível)

  1. Não concordei que tenha o SEPE feito assembleia extraordinária votando novamente anulando a votação anterior. Assembleias têm que ser convocadas, mesmo as extraordinárias e isso não estava previsto. Considero um erro. O governo já sabia da votação das 14h. Então era obrigado a esperar até 4ª f e não condicionar o calendário de reuniões pedagógicas e do Plano de Carreira e a publicação em DO ao retorno da greve na 3ªf, como está implícito na Ata da Reunião. Durante a caminhada muitos professores que votaram saíram em direção à Central, voltando muito justamente para suas casas distantes. Afinal estavam sob sol escaldante e com fome até aquela hora por causa da estratégia do governo de marcar a reunião dentro do tempo combinado para a assembleia na Prefitura. Eu saí da passeata na Cinelândia às 16h (sei exatamente, pois fui pra o Assim Vivemos, no CCBB assistir a um filme nesse horário). Soube da mudança da assembleia ao voltar pra casa e não entendi nada. Quando soube o que aconteceu me senti traída.Afinal perdi meu tempo sob aquele sol a fim de votar e depois tudo foi modificado? Como assim???? Assembleias têm regras.Precisam ser convocadas.O SEPE errou feio aí. Isso está provocando nos professores um sentimento de incerteza, pois nem se deu tempo para se discutir nada.O governo não podia condicionar nada após uma votação e o término da assembleia, oficial porque convocada com antecedência e com presença maciça de professores.Assembleia e passeata são instâncias diferentes.Só serviu pra ajudar a desmobilizar alguns ou acirrar ânimos de outros. É preciso ter mais cuidado.Agora, caso se vote pelo retorno na 3ªf, acredito que devemos tirar representações em cada escola a fim de acompanhar junto às Regionais e na rede o desenvolvimento das ações do Grupo de Trabalho. Afinal, qual é o PC que vão tabalhar : o nosso ou o da Claudia Costin? Os dois? Isso não está claro na Ata. O SEPE precisa nos manter informados permanentemente. Com certeza temos conquistas, sim. Mas elas se referem mais às nossas ações – mobilização, presença, adesão crescente a cada dia – Quanto às propostas do governo considero avanço o fato de ter reconhecido o SEPE como nosso Sindicato de fato e de direito,o que se recusava a fazer até anteontem; se comprometer com o prazo menor para elaborar o Plano de Carreira, com a valorização nele do tempo de serviço e da formação e com algum aumento no piso de todas as categorias ( quando pela manhã estava se recusando a dar qualquer diferenciação do funcionalismo geral), embora bem menor que o solicitado. Mas entende-se que em greve se tem que negociar e não se consegue 100% do que é pedido. E sobre o rejuste de 6,7..% somará de 14 a 15%. Porém abono de faltas não é vantagem nem moeda de troca. Além disso isso seria votado na 4ª f a nosso favor, já que é direito.

    • Ana Maria, coincido com o que você expõe. Considero que houve uma série de erros na condução do processo e esperamos que a categoria vote pela continuidade da greve, ao menos para que se possa discutir os termos do seu término com mais calma.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s