O ‘laicatolicismo’ brasileiro: a violência doce da razão católica

Não, não é. E nunca foi.

Não, não é. E nunca foi.

No laicatolicismo brasileiro, tudo é laico até que não seja católico.

A vinda do Papa Francisco para a Jornada Mundial da Juventude é o acontecimento da semana. O Papa está constantemente embutido nas programações de diversos canais televisivos e é o assunto de todas as rodas de conversa. No Rio de Janeiro, onde as ruas estão tomadas por ‘peregrinos’, é tema onipresente em todas as rodas possíveis; nos bares, restaurantes, nos ônibus… mesmo porque em todos esses lugares é impossível não topar com a indumentária padronizada dos fiéis.

No campo da política, as declarações do Papa reverberam pelos espaços prováveis de acolhimento das opiniões manifestadas (e mesmo nos nem tão prováveis assim) e se chocam com a crítica minoritária. E é a respeito da reverberação improvável e do excessivo comedimento no ataque às posições reacionárias que se trata esse texto. Não tanto para insistir nas obviedades, sempre tão pouco óbvias infelizmente, do conservadorismo atroz de posturas como a oposição a concessão de direitos à população LGBTT, a pretensão de controlar os corpos de homens e, principalmente, mulheres, ou da interdição moralista do debate sobre a descriminalização das drogas (que se alinha na trincheira da guerra às drogas que, de fato, é guerra aos pretos e pobres). Mas para tentar problematizar o verdadeiro bloqueio anti-crítica que se instaura quando essas opiniões, tão severamente criticadas quando expressas por lideranças evangélicas como Silas Malafaia ou Marco Feliciano, estão inscritas no discurso papal e católico. Bloqueio em que se alinham não apenas conservadores, mas também liberais sinceros e pessoas inequivocamente de esquerda. O que explicaria a atitude de comedimento e não-enfrentamento frente aos descalabros papais, se os mesmos descalabros provocam a ira dos mesmos atores quando ditas e defendidas por líderes evangélicos?

Primeiramente, algumas pessoas de esquerda (como o respeitado teólogo da libertação Leonardo Boff) são da opinião de que Mario Bergoglio, o Papa Francisco, representa uma ruptura com a orientação reacionária dos últimos papados e reaproximaria a Igreja Católica de um maior contato com os pobres e despossuídos, bem como creem que ele renovará as práticas da instituição frente à necessidade de uma igreja mais militante e combatente (sua ordenação jesuítica — os jesuítas tendo origem na expansão contra-reformadora que impulsionou a ICAR à disputa dos fiéis no além-mar e sendo denominados como ‘exército de Cristo’ — confirmaria essa inclinação). Diante dessa leitura (cujo endosso não damos em hipótese alguma, preferindo seguir as boas análises de Breno Altman e Hugo Albuquerque, onde Francisco se aproxima mais a um Wojtyla do século XXI, imiscuindo-se no campo dileto das esquerdas bem-sucedidas da América Latina, o combate à pobreza e à desigualdade, e tendo como objetivo ser, tal como o polonês João Paulo II, uma ponta de lança da ofensiva da direita neoliberal no continente), a continuidade do corpo doutrinário conservador parece aceitável em face dos avanços que se percebe. Em segundo lugar, apontam-se diversos motivos para não dar bom combate às posições reacionárias do catolicismo: o Papa e os católicos não seriam virulentos como os evangélicos (o que ficou bastante discutível com fatos recentíssimos), a crítica seria contraproducente politicamente, haveria a necessidade de se respeitar a fé alheia, entre outras. Em comum, apenas a manifestação de uma tergiversação variada e sem nenhum fundamento realmente razoável. Mais do que isso, a manifestação do que se pode chamar o ‘laicatolicismo’ brasileiro.

O que chamo de laicatolicismo brasileiro é essa violência doce da razão católica que domina a conformação das opiniões, o consenso por trás da formação do consenso, o horizonte mesmo onde se pode pensar as relações das religiões com a vida, a política, ou seja, no seu atravessamento biopolítico. Porque a situação desses debates, a linha de frente da defesa do discurso papal sendo capitaneada por pessoas de esquerda e sinceros adversários do fundamentalismo de matriz evangélica, não cessa de o provar: no Brasil, tudo é laico, até que não seja católico.

Assim, os gritos contra a ‘teocracia evangélica’ ignoram olimpicamente que a capacidade desse grupo sócio-relogioso ou mesmo sua expressão político-institucional — mesmo a partir do crescimento das últimas décadas — são insuficientes para sustentar tais posições como consensuais, e que, portanto, é necessário que uma maioria laico-católica se poste na retaguarda das escaramuças neopentecostais. Qualquer motivo ou razão para indignar-se seletivamente contra os evangélicos, ou não indignar-se contra os católicos, é brandido. E isso, justamente, porque é a razão católica que comanda os termos do debate, que diz o que pode e o que não pode ser dito.

Dessa forma, ignora-se, por exemplo, o histórico envolvimento da Igreja católica com movimentos anti-democráticos (não à toa as marchas de 1964 eram marchas ‘com Deus’) e todas as suas ofensivas contra direitos de minorias e ataques à laicidade do estado*: o ensino religioso em escolas públicas, o ataque aos direitos das mulheres, como no caso atual do PLC 03/2013, ou a intervenção contra a garantia dos direitos reprodutivos no documento final da Rio+20, os gastos públicos com um evento do porte da JMJ, ou mesmo a condenação do atual Papa a concessão de direitos civis à população LGBTT (presente em sua primeira encíclica).

Ao laicatolicismo brasileiro, fortíssimo — capaz de (eu vi!) fazer sorrir os moradores da Tijuca, bairro de classe média do Rio de Janeiro, fortemente ciosos do seu direito à imperturbabilidade, ante o estrondo de um bumbo tocado nas dependências de um mercado, com direito a exclamações a respeito da beleza daquela ‘fé’ –, some-se o estilo popularesco de Sua Santidade e talvez se consiga compreender como, à esquerda e à direita, todos parecem magnetizados pelo Papa dos pobres o seu rebanho.

No fundamental, somos, os brasileiros, católicos, mesmo os que não somos. Concedemos naturalidade à postura doutrinária conservadora dos mesmos, quando denunciamos com vigor os mesmos dogmas na boca de outros. As determinações desse fenômeno são históricas e sociais, estão além do campo estritamente religioso: tem mais que ver com a nossa formação enquanto país. Forjados na expansão colonial européia, fomos também forjados como território exclusivo de expansão da fé católica, embalada no contra-reformismo tridentino. Ao exclusivo comercial metropolitano correspondia um exclusivo religioso, cuja resultante foi a oficialização do cristianismo católico como religião nacional.

Da mesma maneira, o laicatolicismo é compromisso de estado: destina-se a tolerância mútua de espaços de atuação e funcionamento (o espaço secular conquistado para o estado sendo, aliás como sempre, uma conquista das lutas sociais e não dádiva concedida desde o céu das classes dirigentes). Nesse panorama, a emergência dos vários matizes de evangélicos, num sentido muito específico, é bastante benéfico para a crítica da crítica laica. Desembaralhando as cartas marcadas do jogo — em busca de um diferencial de competitividade no mercado da fé –, ‘o processo de pluralização do campo religioso brasileiro’, como afirmou Antônio Flávio Pierucci¹, desmonta o consenso e evidencia o mal-estar do secularismo à brasileira. O que não pode passar desapercebido é o correto dimensionamento das forças em jogo, sendo fundamental a percepção de que o grito do fundamentalismo evangélico não existiria sem o silêncio cúmplice (e sócio) da maioria laico-católica (e que em ambos os campos, católico ou evangélico, como em quaisquer campos, há espaço para o trabalho militante da esquerda que queira agenciar-se aos aspectos positivos, certamente existentes). Tendo percebido o que está no palco, não se pode demorar a perceber quem está nos bastidores da produção (do consenso).

* À guisa de manutenção da unidade do texto não aprofundaremos o mérito da questão, mas tampouco a bandeira liberal (irrealizável do ponto de vista prático) do estado laico nos parece uma saída para o problema que se enfrenta.

1. Antônio Flávio Pierucci, ‘Religiões no Brasil’ In: André Botelho & Lília Moritz Schwarcz, Cidadania, um projeto em construção: minorias, justiça e direitos, 2012, p. 67.

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As muitas cabeças da hidra: a revolta brasileira no contexto global

Contra um inimigo global, uma multidão comum.

Contra um inimigo global, uma multidão comum.

A hidra tem muitas cabeças, espalhadas pelo mundo, sempre a se renovar, mas o corpo é o mesmo e se articula de forma comum contra um inimigo global.

 
Ainda no calor das primeiras movimentações de monta da multidão brasileira, logo após o 17J e a batalha da ALERJ, esse blog publicou algumas notas a respeito do movimento dos movimentos que se irradiava pelo Brasil. Além de posteriormente ter arriscado uma tentativa de interpretação mais global da situação, procurando enxergar o entrecruzamento das temporalidades que se articulavam na irrupção indignada dos manifestantes nas ruas.

O que proporciona e impulsiona o retorno ao tema (para além do fato de que o ‘tema’ não se foi, a multidão não tendo adormecido — como querem alguns analistas que, na esquerda e na direita, parecem amedrontados com a força das ruas –, mas tendo vindo a se comportar como verdadeiras cabeças de uma hidra que, após serem cortadas pela repressão policial, retornavam em outros lugares, prontas para novo confronto), além de alguns pontos que ficaram por dizer (ou que sequer haviam sido detectados pelo autor naquelas alturas), é a reiterada insistência com que algumas leituras insistem em desqualificar aprioristicamente as manifestações, bem como o fato de outras delas se assentarem em alguns pontos de vista que consideramos errôneos ou contraproducentes.

I. Determinação classista (e moralista) dos movimentos: uma das grandes chaves de leitura da multidão brasileira no campo do governismo (incluindo-se aí boa parte da blogosfera progressista — com algumas ressalvas) é a desqualificação classista do movimento: seria uma multidão de classe média, incapaz de fazer avançar a agenda política brasileira (quando não o ovo de serpente de um golpe ditatorial contra o atual governo) e cuja (suposta) circunscrição social do seu lugar de fala impediria qualquer desencadeamento de um processo novo de redistribuição de riqueza.

O que se poderia chamar de hipótese governista tem diversos problemas (como a convicção com a qual identifica todo o processo multitudinário a uma classe social específica, quando se sabe que as formas de auto-organização da multidão, tal e qual todos os recentes — e nem tão recentes, basta lembrar Seattle e Gênova na longínqua passagem do milênio — simplesmente descentram socialmente as mobilizações), mas vale notar que o principal deles é, de fato, uma miopia assombrosa para com as resultantes do próprio governo que apoiam. Os dez anos de lulismo nunca vem à baila nas análises governistas, não pelo menos para serem contados como possível determinação dos horizontes que permitiram os atuais protestos.

Ora, o rearranjo social que o lulismo (a partir do desencadeamento de processos de mobilidade social e a potencialização desse processo com outras iniciativas — como as cotas e o Pro-Uni — democratizantes) produziu é não apenas contexto da multidão brasileira, é uma de suas mais importantes determinações, além de, claramente, ter duas ou três coisas a dizer sobre a composição social do movimento: em primeiro lugar, por ter se agenciado a movimentos de ascensão da renda e permitido que mais e mais famílias e pessoas ingressassem na arena da política brasileira com voz (e não só com o voto), e, em segundo lugar, por ter redesenhado as hierarquias sociais brasileiras (no contraponto das determinações antagônicas do capitalismo global), bem como seus horizontes de desejo: os filhos da classe média, assim como os filhos das classes subalternas ascendentes, são, ao mesmo tempo e diferentemente, precários: enquanto os primeiros não conseguem vislumbrar um horizonte onde terão rendimentos e um padrão de vida semelhante ao de seus pais (tanto em absoluto, mas também e, principalmente, relativamente à massa de pobres e excluídos), os últimos, após ascenderam em termos de renda salarial, começam a vislumbrar um porvir diferente do contexto em que cresceram, mas que depende da sua batalha cotidiana ao trabalhar e estudar. Em ambos os casos, é a subsunção real do trabalho no capital, a mercantilização do que antes eram direitos, em suma, o atual contexto biopolítico — processos inscritos na atual ordem do capitalismo neoliberal e que, no Brasil, se modulam especificamente pela ascensão, não ‘programada’, dos pobres — que, de certa forma, (associados aos gritos decorrentes da crise da representação, no qual nos deteremos na segunda nota) os impulsiona às ruas.

Nos dois casos apresenta-se um futuro diferente, mas uma mesma situação de precarização (um fenômeno diacrônico, por certo): enquanto os jovens criados no seio da velha classe média temem pelo próprio futuro, a partir das expectativas que nutriram ao longo da vida, os jovens das classes subalternas se rebelam ante o fechamento das brechas e aberturas por meio das quais o lulismo fazia passar iniciativas democratizantes da sociedade brasileira — bem como pela situação de precariedade geral inscrita nas suas próprias vidas desde sempre (eles querem mais) — e que, desde a ascensão de Dilma, combinada ao recrudescimento da crise mundial, cessaram.

Quando se quer ‘mais dinheiro para saúde e educação’ não se está propugnando uma intervenção governamental pela melhora dos serviços públicos que interferem, diretamente, na dinâmica reiterada de exclusão social no Brasil? Quando a multidão pede a desmilitarização da polícia, a partir, sobretudo, da própria experiência de confronto contra as forças repressivas, mas não só — vide os agenciamentos com a Maré, a Rocinha e o Vidigal –, não se está problematizando a máquina assassina de repressão e controle das classes subalternas, de negros e pobres? Quando se questiona as passagens dos transportes públicos, demandando a abertura de suas contas e atacando diretamente o seu empresariado, inclusive nas suas articulações privatistas dentro do Estado, não se está lutando por mobilidade urbana mais barata, por mais direito à cidade para quem é dela excluído pelo desenho elitista do traçado urbano brasileiro (que concentra equipamentos culturais e os próprios serviços públicos de forma escalonada em consonância com as hierarquias sociais)? Multidão de ‘classe média’!?!?

II. (Anti-)genealogia dos protestos: conexamente, a leitura das manifestações tem se deixado dominar, por vezes, por uma leitura genealógica dos movimentos de massa no Brasil. Espelha-se, assim, as atuais manifestações em outros processos semelhantes, ao longo da história do país, na busca por uma receita de ação frente ao que acontece no Brasil contemporâneo. Pior ainda, o passado passa a oprimir, inexoravelmente, a ação dos vivos, determinando (tal qual a composição social de classe média que acabamos de rejeitar) todo o horizonte das atuais mobilizações.

O provérbio árabe, segundo o qual os homens parecem mais com seu tempo do que com seus pais, nos parece mais sensato e aponta para um caráter extremamente problemático desse tipo de análise: sua contenção ao universo do Estado-nação. Justamente quando as convulsões sociais se estendem e articulam globalmente (com movimentos de multidões em diversas partes do mundo repetidamente se mobilizando: Ocuppy Wall Street, Indignados, Primavera Árabe, resistência anti-Troika na Grécia, entre outros), deixar a análise restrita a esse universo é perder completamente a capacidade de enxergar os cruzamentos da conjuntura planetária, deixando-se levar pelas travas daquilo que Deleuze e Guattari denominaram como ‘pensamento arborescente’ e seu ‘modelo representativo’ (justamente aquilo que é filosoficamente rejeitado pela multidão).

A esse tipo de pensamento, tal e qual os dois pensadores franceses, devemos opor um pensamento rizomático, capaz de enxergar as linhas que ligam a multiplicidade dos vários momentos e processos de rebelião política e social atuais. Nesse ponto específico é necessário que a leitura do movimento dos movimentos brasileiro no pano de fundo do contexto global atual seja acompanhada de uma leitura do lulismo no mesmo pano de fundo, o que a análise ancorada na ideia de Estado-nação é completamente incapaz de fazer.

É preciso notar que o lulismo sob Dilma enveredou pelo fechamento das brechas democratizantes, tanto pela dinâmica interna da coalizão, quanto pela consistência da crise econômica e financeira mundial — que tornou o preço das negociações inter-institucionais bastante mais elevado, o consenso governista sendo o de que importaria mais a manutenção da situação macroeconômica do país, com a manutenção dos níveis de emprego, dos programas sociais e da valorização da renda salarial. O pemedebismo que se insinuou desde então não é apenas um fenômeno nacional, mas, de fato, uma variante dos processos de fechamento dos canais de expressão política da vasta maioria das democracias parlamentares pelo mundo nos tempos do neoliberalismo maduro, modulação política e institucional da crise da representação que caracteriza o nosso tempo.

Desse modo, se apercebendo das várias temporalidades complexas e interconectadas que instauram o instante (kairòs) em que se pode pensar e agir no nosso tempo histórico, é que se pode ter uma compreensão menos moralista e determinista de fenômenos tão complexos quanto os recentes levantes de junho (e que no Rio de Janeiro, por exemplo, ganharam consistência temporal). Esperar que o mundo vivo e potente se adapte às teorias, descrições e desejos individuais, por outro lado, é a receita mais acertada para que sejamos engolfados no turbilhão, pregando sermões contra terremotos.

A crise da media(ção) em tempos (i)mediatos

A mídia não nos representa.

A mídia não nos representa.

“Do gueto nasce o caos que desestabiliza os mass media, pegos na emboscada da guerra interior, da violação dos direitos humanos, do espetáculo fascinante e incessantemente renovado da imolação e da agonia.” — Paul Virilio, A arte do motor, São Paulo, Estação Liberdade, 1996 [1993], p. 18.

Após as ‘jornadas de junho’, um dos motores do movimento dos movimentos que parece ter se consolidado no debate político é o da crise da representação. Por toda parte, os analistas, sejam os do oligopólio midiático ou os das burocracias partidárias, da direita à esquerda, sem distinção da posição em que se encontram no arranjo institucional (situação ou oposição), parecem convergir no diagnóstico de que os descolamentos entre os eleitores e seus representantes, os cidadãos e as instituições, foram algumas das principais determinações do evento.

A esse diagnóstico respondem as lideranças partidárias e os militantes com anúncios da promoção de uma reforma do sistema político — a mídia, para quem a corrupção e a distorção da representação são, a bem da verdade, o combustível das suas próprias intervenções políticas, apenas acompanha –, e, a depender da orientação em questão, com a problematização oposta dos problemas encontrados: financiamento público exclusivo de campanha, voto distrital, lista fechada, aberta ou mista, etc..

Sem que algumas dessas demandas não sejam, de fato, importantes na democratização do sistema político-eleitoral, o que não se pode perder de vista é outro ponto, verdadeiramente fundamental: que o problema da representação não se resume ao campo institucional da política, mas atravessa todos os segmentos da sociedade, incluindo-se, certamente, a mídia, cuja própria etimologia se assenta na ideia da representação (mediação). Não à toa, aliás, a imprensa e os partidos políticos nascem, em termos verdadeiramente significativos, juntos, como gêmeos siameses durante a emergência da sociedade burguesa oitocentista, na aurora da modernidade. São representantes genuínos do surgimento de um novo tipo e uma nova lógica de representação que pretende gerir a crise do poder e da soberania, dando-lhes uma solução em consonância com o ditado: vão-se os anéis, mas ficam os dedos, após o proletariado emergir dos escombros das revoluções burguesas, ameaçando a própria ordem novíssima, recém instaurada.

Por essa razão a atitude da multidão nas ruas de, a um só tempo, rejeitar os grandes meios de comunicação como símbolos tão conectados à corrupção que eles rejeitam quanto os partidos e fazer sua própria mídia, filmando e denunciando através dos celulares, quando nas ruas, e se mobilizando através das redes sociais, é paradigmática da miséria política das propostas reformadoras do sistema representativo.

Com essas ações, os manifestantes demonstram desejo e capacidade de serem sua(s) própria(s) mídia(s), abolindo, revolucionariamente, dessa forma a própria noção da mediação. Como alertou o filósofo político italiano Paolo Virno ‘uma oposição a esse percurso, que se conduz em nome dos valores da representação’ é ‘ineficaz e patética’, ‘tão eficaz quanto pregar a castidade aos pássaros’¹.

Da mesma forma, as máscaras, a identidade anonymous e, particularmente, a declaração de um dos militantes do Movimento Passe-Livre, que, perguntado sobre sua identidade, respondeu que seria ‘ninguém’ (declaração que já recebeu tratamento mais detido num artigo fantástico de Peter Pál Pelbart) — a mídia, ávida por encontrar um representante e levar o jogo para o próprio terreno, fracassando miseravelmente ante a sagacidade política do militante — são sintomas do desgaste da delegação mediada como forma de resolução dos conflitos sociais e políticos.

Revendo o diagnóstico, certamente míope, tanto dos grupos de mídia quanto dos partidos políticos, seria possível dizer mesmo que não vivemos uma crise de representação, mas que apenas se descortinou — diante de inovações que redefinem radicalmente o tempo (produtivo, histórico e antropológico), fazendo-nos aquilatar sua extensão e vislumbrar um horizonte também radicalmente novo, onde se vive no plano do imediato* — pela primeira vez o fato de que a representação é ela a mesma a expressão de uma crise, a crise que se instaura entre a potência dinâmica da multidão e o seu engessamento nas tramas e mitologias ( a mistificação do povo como fundamento de um poder unitário, que nunca pode lhe ser restituído, que radica sua legitimidade em um contrato originário, a ser defendido contra o próprio povo…) dos poderes constituídos.

* Agradeço este insight ao filósofo (e amigo) Cléber Lambert.

Nota:

1. VIRNO, Paolo, ‘Virtuosismo e revolução’ In: Virtuosismo e revolução, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2008 [1994], p. 139.

No inverno do descontentamento: política de terror e terror da política

O inverno chegou.

O inverno chegou.

“A experiência, no entanto, parece pelo contrário ensinar que é do interesse da paz e da concórdia conferir todo poder a um só. (…) Mas, se a servidão, a barbárie e o isolamento se devem apelidar de paz, então não há nada mais miserável para os homens do que a paz. (…) É, portanto, do interesse da servidão, não da paz transferir todo o poder para um só: porque a paz, como já dissemos, não consiste na ausência de guerra, mas na união ou concórdia dos ânimos.”

Baruch de Espinosa, Tratado político, VI, 4, pp. 48-49.

Desde o início das manifestações por todo o país o tema da violência policial tem atravessado todas as agendas. Pode-se, inclusive, identificar a truculência da PM paulista como um dos mais poderosos agentes catalisadores da multidão brasileira. Os relatos da repressão contra os protestos de meados de junho na capital paulista encontraram forte eco na redes sociais, propiciando uma explosão comum em diversas outras capitais e cidades do país. A partir daí, entretanto, uma espécie de concertação ente forças político-partidárias equilibradas naquele estado (PT e PSDB, cuja concertação pode ser identificada mesmo no ridículo anúncio conjunto da revogação do reajuste das passagens) parece ter feito a opção por uma espécie de trégua momentânea, visando o arrefecimento dos protestos. Foi então a vez do governo do Rio de Janeiro, estado em que o PMDB simplesmente não tem opositores à altura, demonstrar que estava disposto a assumir um lugar de destaque na defesa da ordem. O que a favela já conhecia em tons vermelhos, foi apresentado às multidões, em tom cinzento e com odor irrespirável.

Desde as primeiras manifestações, a PM fluminense demonstrou-se autorizada a promover uma verdadeira política de terror contra manifestantes e não-manifestantes. Pessoas que passam tranquilamente pelas ruas, que apenas aproveitam o fim de tarde e início da noite em bares e restaurantes ou mesmo que estejam em clínicas e hospitais são alvos em potencial: basta estar no caminho das forças policiais. Ressalvado o dia 17 de junho (17J) quando a multidão enfurecida encurralou e derrotou a PM destacada para defender a ALERJ, no que ficou conhecido como batalha da ALERJ, o roteiro dos protestos tem sido o mesmo: após caminhadas pacíficas ocorre o ataque arbitrário das forças da ordem e o que se segue, da parte dos manifestantes, é tão apenas a expressão de um direito de resistência. Foi assim no 20J, na final da Copa das Confederações e ontem quando em ato convocado por centrais sindicais — mas não domesticado por essas, felizmente — a multidão se dividiu entre o centro da cidade e o Palácio de governo, em Laranjeiras. Neste meio tempo, a chacina promovida pelo BOPE, tropa de elite da PM fluminense, na favela da Maré — um evento, infelizmente, cotidiano, mas dessa vez ocorrido na confluência do movimento dos movimentos — veio amalgamar a percepção da insustentável situação da polícia militar no Rio de Janeiro (e também no Brasil). O secretário de segurança pública, José Mariano Beltrame, durante anos ressalvado até mesmo pela própria esquerda, pelos desvarios de Cabral, ficou, finalmente nu, e com ele toda a política pacificadora do estado.

Entre todos esses episódios, porém, houve o agravamento da situação política do governador Sérgio Cabral. À massa de desmandos, arbitrariedades e absurdos veio somar-se um fato quase inócuo — o uso e abuso de helicópteros oficiais por parte do governador — mas que desencadeou o encaminhamento de pedido de impeachment por parte de deputados oposicionistas. Em plena crise de legitimidade — inimaginável no interior de um governo que há 3 anos se reelegeu com apoio de 2/3 da população do estado –, o governo promove verdadeira política de terror contra a multidão que vem minando suas bases.

O que fica claro, na atual conjuntura, é que o que se vive, no âmbito das instituições políticas, no Rio de Janeiro, seja no estado, seja na capital, atualmente, não tem qualquer relação com a política, mas é expressão de como a política institucional do nosso tempo rompeu quaisquer ligações com a política real que emana da multidão constituinte. O que os governos do PMDB promovem, com suas polícias, no sentido que essas palavras recebem da polizeiwissenchaft, é a aniquilação da política como forma de gestão. Qualquer manifestação de resistência ou de revolta em potência é obstruída pela polícia, expressão máxima dessa forma de governo. E, até meados de junho, a estratégia vinha funcionando quase que à perfeição. Foi quando surgiu o inesperado — aquilo que nós sempre esperamos.

O que a multidão desencadeou no Brasil, e mais especificamente no Rio de Janeiro, foi um radical processo de crítica da razão política sob a qual vivemos atualmente. E aqueles — dentro os quais Cabral se destaca — que tem terror da política não tem nada de novo que lhe opor, senão a continuidade da repressão. O que não podem impedir mais, aparentemente, é que suas reações ao processo ecoem como chamado aos que ainda não estão lhe resistindo. Os crimes do poder vem engendrando o aumento da própria resistência. O aumento do terror de estado resultou apenas em confirmar o terror que ele mesmo sente da política das ruas. À paz (armada policial) a multidão hoje opõe uma verdadeira guerra. Pois percebeu, como Espinosa no século XVII, que a primeira não é a ausência da última e que a democracia tem a ver mais sobre o dissenso do que sobre o consenso.