Algumas notas sobre a multidão brasileira

A multidão, com mais de 100 mil pessoas, marchou no Rio de Janeiro.

A multidão, com mais de 100 mil pessoas, marchou no Rio de Janeiro.

O dia 17 de junho de 2013 ficará marcado por diversas manifestações e protestos por diversas capitais do Brasil. Segundo estimativas, mais de um milhão de pessoas foram às ruas em doze capitais do país. Se este dia se notabilizará como marco histórico de uma onda maior de protestos que despejará multidões mais consistentemente nas ruas e se estas últimas conseguirão racionalizar objetivos mais claros é impossível prever.

Abaixo enumero algumas notas e impressões sobre o processo recente de construção coletiva da multidão brasileira:

I. ‘Sem partido!’ — No Rio de Janeiro – e, a julgar pelas informações encontradas nas mídias sociais e corporativas, também em outras cidades, como São Paulo – há um forte sentimento anti-partido nas manifestações. Apressadamente já se conectou essa tendência a uma captura dos processos pelo udenismo característico da política brasileira. Em relação a esse ponto é necessário fazer algumas distinções importantes, quais sejam: em primeiro lugar, o udenismo não é tão somente uma forma de manobra ideológica da direita brasileira, mas uma denominação que pode recobrir, com certa adequação, a percepção difusa da dinâmica política que se deixa ouvir na murmuração cotidiana, nas conversas entre familiares, entre amigos, nos bares, por exemplo. Em segundo lugar, é preciso alargar o horizonte da análise e notar que a maioria dos protestos integrantes do recente ciclo mundial de lutas em países de democracia parlamentar (o OWS, o 15-M, as recentes mobilizações na Turquia, entre outros) incluem uma forte tendência de crítica da política representativa, manifestando-se numa verdadeira crise geral da representação política como forma de relação entre as partes envolvidas na dinâmica institucional da democracia. Cabe lembrar que essa crítica não implica necessariamente apoliticismo, mas uma exigência pela recomposição de um ambiente institucional menos deformado e distorcido ou o vislumbre de um horizonte novo na dinâmica política (os partidos não existem desde o livro do Gênesis, é bom que se lembre).

II. O aprendizado da multidão — O segundo ponto a destacar é que a multidão é extremamente heterogênea, incluindo partidos políticos, sindicatos, movimentos sociais – enquanto sujeitos coletivos institucionalizados -, mas também, e sobretudo, se forjando nas redes (sociais) e nas ruas, através das novas capacidades de mobilização oferecidas pela internet. Trata-se de uma mobilização de novo tipo, capaz de, sem partir de nenhum centro localizável, fazer emergir uma multidão auto-organizada e plural nas ruas. Assim, se há ressalvas a fazer quanto a rejeição de movimentos institucionalizados (sobremaneira os partidos políticos), é bom que se lembre que aqueles que encarnam os fluxos subterrâneos de revolta, latentes desde certo tempo, e que agora convergem nas grandes passeatas e mobilizações, carecem da experiência prática da política nas ruas e, portanto, aprenderão no curso dos movimentos e marchas (com o apoio daqueles mais cotidianamente engajados com questões de mobilização, militância e ativismo) a canalizar as expressões da revolta que os levaram a sair de casa. O trabalho da esquerda sobre a multidão é um trabalho na multidão (seja nas redes, seja nas ruas).

III. Da utilidade e da desvantagem da história para a multidão — A emergência das multidões por todo o Brasil deixaram inseguros todos aqueles que conhecem a história recente do país. Muitos estão preocupados com a possibilidade dessas revoltas serem instrumentalizadas pela direita midiática – que, após um momento de reação padrão (incitação à repressão e criminalização dos protestos) foi surpreendida pela potência das mobilizações, passando a adotar um tom mais cauteloso e defensivo, passando a pretender dar direção intelectual aos protestos – e não cansam de relembrar a conjuntura que antecedeu o golpe de militar de 1964. No seu ‘O Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte’, Marx escreveu que o passado oprimia como um pesadelo os cérebros dos vivos, bem como, comentando Hegel, que a história, seus personagens e fatos só se repetiriam duas vezes: a primeira como tragédia e a segunda como farsa. O que a primeira de suas observações tem a dizer sobre a atual situação é que todo passado que promove não a ponderação sobre os rumos, mas a inação e o medo, é opressor: intoxicada de memória a multidão não marcha. E a segunda, que os alertas (por vezes realmente temerosos, mas em outras ocasiões por pura canalhice política) tem de cessar ante a incapacidade da história em se repetir (e é esse o recado de Marx). O que acontece hoje é a emergência de uma tensão e de um limite, ambos prestes se romper. Nessa hora, a história precisa deixar de ser patrimônio, precisa ser expropriada pelos atores, em nome do futuro.

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6 opiniões sobre “Algumas notas sobre a multidão brasileira

  1. Suspeito que antes de serem instrumentalizados pela direita, os protestos o sejam pelo governo.
    A julgar pela profusão – quase histérica – de posts a respeito do fenômeno nos blogs autodenominados “progressistas” (de apoio ao governo), e principalmente, pelo que dizem a respeito do assunto, essa tendência parece estar sendo aos poucos montada.
    Não falta muito para que eles acabem sendo interpretados como manifestação de apoio ao governo.
    No máximo, as esferas governamentais concederão uma trégua (temporária) quanto ao que todos concordam ser o núcleo central – e original – dos protestos, o preço da tarifa dos ônibus, reduzindo o fenômeno àquele núcleo inicial de reivindicações e portanto, o seu peso.
    Qualquer manifestação subsequente será então tachada de intransigência, radicalismo, etc, já que o governo se dispôs a “ouvir” as ruas – como começam a querer fazer crer os tais blogs e os próprios discursos governamentais.
    E todos voltam a ser felizes como antes.
    (E no entanto, há muito mais ali do que apenas os 20 centavos.)

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